Ricardo Reis



         “Aí por 1912, salvo erro (que nunca pode ser grande), veio-me à ideia escrever uns poemas de índole pagã. Esbocei umas coisas em verso irregular (não no estilo Álvaro de Campos, mas num estilo de meia regularidade), e abandonei o caso. Esboçara-se-me, contudo, numa penumbra mal urdida, um vago retrato da pessoa que estava a fazer aquilo. (Tinha nascido, sem que eu soubesse, o Ricardo Reis).”


                                 
                                                     (PESSOA, 1935)

Ricardo Reis, como conta Fernando Pessoa em carta à Alberto Casais Monteiro, em 1935, surgiu por volta de 1912, quando Pessoa teve a ideia de escrever poemas de índole pagã. O heterônimo, educado em colégio jesuíta, é um Médico e vive no Brasil desde 1919. Fisicamente, Pessoa o descreve como mais baixo, mas mais forte que Caeiro e seu tom de pele é moreno mate.


SEGUE O TEU DESTINO

Segue o teu destino,

Rega as tuas plantas,
Ama as tuas rosas.
O resto é a sombra
De árvores alheias.

A realidade
Sempre é mais ou menos
Do que nós queremos.
Só nós somos semprea
Iguais a nós-próprios.
Suave é viver só.
Grande e nobre é sempre
Viver simplesmente.
Deixa a dor nas aras

Como ex-voto aos deuses.

Vê de longe a vida.
Nunca a interrogues.
Ela nada pode
Dizer-te. A resposta
Está além dos Deuses.
Mas serenamente
Imita o Olimpo
No teu coração.
Os deuses são deuses
Porque não se pensam.

(PESSOA, Fernando. Poesia Completa de Ricardo Reis, 2007)


Dentre suas características, Pessoa define Reis como “um latinista por educação alheia, e um semi-helenista por educação própria”. Conta, ainda, que o português de Reis é melhor que o seu, mas com um purismo que considera exagerado. Por fim, ressalta que a simulação é mais fácil e espontânea em verso e, devido a isso, é difícil escrever a prosa do heterônimo.

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