Origem dos heterônimos de Fernando Pessoa
Um dos fatos mais marcantes da obra de
Fernando Pessoa é a criação de vários heterônimos – personalidades sob as quais
Pessoa não só escreveu poemas, mas também criou personalidades e características literárias distintas. Sobre a origem de seus heterônimos, o
autor diz:
(...)
a origem mental dos meus heterônimos está na minha tendência orgânica e
constante para a despersonalização e para a simulação. Estes fenômenos —
felizmente para mim e para os outros — mentalizaram-se em mim; quero dizer, não
se manifestam na minha vida prática, exterior e de contato com outros; fazem
explosão para dentro e vivo – os eu a sós comigo. (...) nos homens a histeria
assume principalmente aspectos mentais;
assim tudo acaba em silêncio e poesia... (PESSOA, 1935)
Cleonice Berardinelli, professora e pesquisadora brasileira
especialista em Literatura Portuguesa, foi autora da segunda tese universitária
sobre Fernando Pessoa, defendida em 1958. A autora, no capítulo “Fernando
Pessoa: os vários eus” contido na obra “Fernando Pessoa: outra vez te
revejo...”, de 2004, afirma que essa propensão à despersonalização vem desde
sua infância e continua em Fernando Pessoa durante toda a sua vida, dando origem
aos heterônimos literários.
No capítulo “Tempo e melancolia em Fernando Pessoa”, contido
no livro “Mitologia da Saudade: seguido de Portugal como destino”, de 1999, de
Eduardo Lourenço, o autor destaca que o tempo é um tema “obcecante” na poesia
de Pessoa. Para o ensaísta, “o tempo está fora de qualquer possibilidade de
expressão e é no sentimento originário da sua irrealidade que se gera toda a
poesia de Pessoa” (LOURENÇO, 1999, p. 65). Diz, ainda, que é nos poemas de
Fernando Pessoa ele mesmo que o sentimento de “queda no tempo” se realiza mais
perfeitamente, mas a “verdadeira experiência da temporalidade” é vivenciada
apenas pelos heterônimos:
“os três avatares
de Pessoa representam uma tentativa desesperada de se instalar na realidade, de
se confundir com ela, e, em ultima analise, escapar à visao simbolista que a
sua ficçõ heteronimica nunca deixou de ser. (LOURENÇO, 1999, p. 71)
Esvaziando-se de sua
própria personalidade e dando atenção aos diversos movimentos que ocorrem em
seu tempo, é possível experimentá-los sem deixar pistas do que faz parte de
Fernando Pessoa ele mesmo e o que faz parte somente do heterônimo. Cleonice
Berardinelli (2004) destaca que, segundo Pessoa, nos poemas dos heterônimos não
se deve buscar ideias e sentimentos dele mesmo, pois muitos desses sentimentos e
ideias o autor nunca teve.
Por fim, como a pesquisadora afirma, os três heterônimos que
Pessoa destaca são Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos, sendo que o
primeiro influencia os demais. Nas próximas postagens vocês irão conhecê-los melhor.
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